Incontinências: Patinho feio ou o futuro da estomaterapia!?

A estomaterapia é uma especialidade linda, encantadora e abrangente. É composta por áreas que envolvem assistência – da prevenção à reabilitação - a pessoas com necessidades distintas, porém, convergentes. Pode-se considerar a pele, o manto sangrado, como um grande ponto de intersecção para feridas, estomias e incontinências.

Embora, na maioria das situações, os problemas apresentem-se isoladamente, não é incomum encontrarmos pessoas que possuem necessidades de cuidados em todas ou parte das áreas dessa especialidade. Entre numa unidade de cuidados críticos e verá pessoas com traqueostomias, gastrostomias, tubos e cateteres dos mais variados, úlcera por pressão, incontinência urinária e anal e lesões de pele perineal. Cada área dessa especialidade possui um corpo conhecimento técnico e científico extenso e que mudam continuamente, sendo necessário um grande investimento pessoal, anos de contínuo estudo e prática para adquirir expertise. Por isso, por vezes me questiono: quanto tempo seria necessário para deixar de ser um noviço e de fato tornar-se um especialista em estomaterapia? Para os pesquisadores, essa é uma boa questão de pesquisa.

Tenho o privilégio de ministrar aulas em praticamente todos os cursos de especialização de estomaterapia do país. E no pequeno bate-papo observo que os enfermeiros, na sua maioria, procuram a especialização em função de feridas. E sempre me pergunto: que razões motivam os enfermeiros pelo cuidado com lesões de pele? A resposta para isso, uma vez mais, necessita de investigação científica ou de mercado, mas alguns aspectos abstraídos são: a paixão, o modismo, o encanto pelas tecnologias avançadas, o vislumbre pela autonomia, a valorização profissional e oportunidade de se tornar um enfermeiro empreendedor etc.

Historicamente, a busca pela estomaterapia se dava por interesse, principalmente, pela assistência às pessoas com estomias. Isso é coerente, pois é a base da especialidade. Infelizmente, nos dias atuais, há um certo desinteresse pela área.

O que dizer das incontinências? Meu diagnóstico é que ainda estão muito pior que as estomias. São poucos os enfermeiros que se interessam pela área e existe um grande desconhecimento dos nossos colegas de profissão que cuidados com incontinentes, por exemplo, vão além de treinamento de cateterismo intermitente.

A incontinência afeta milhares de pessoas em todo o mundo, ocorre em qualquer fase do ciclo vital, não escolhe etnia ou classe social e, por vezes, ela é presente na vida de pessoas muito próximas de nós. Pelo mito que envolve a perda da continência ou pelo desconhecimento de suas possibilidades de melhora ou cura, muitos sofrem calados e passam despercebidos na anamnese dos profissionais da saúde, incluindo os enfermeiros.

O que faz os enfermeiros que ingressam na PGE terem tão pouco interesse pelas incontinências? Vamos além: por que, mesmo cursando a PGE, continuam desinteressados pela área? Várias razões podem ser apontadas: pouco domínio científico, ausência de paixão, falta de visão da potencialidade da área ou mito de ser uma área complexa e inatingível.

A estomaterapia brasileira carece de enfermeiros com pós-graduação em estomaterapia (PGE) atuantes em incontinência. Muito embora tenhamos verificado um pequeno grupo interessado, ainda são poucos aqueles que se envolvem na área e essa é uma realidade que precisa ser mudada. Pois atrás de “um patinho feio” pode estar escondido um belo cisne. A incontinência é uma área de futuro na estomaterapia brasileira. Certamente, devemos concordar que envolve conhecimentos profundos de fisiologia da micção e da evacuação, bem como um alto grau de estudo da anatomia pélvica, além de detalhes acerca de fortalecimento muscular que não obtivemos na graduação. Mas observamos que o mesmo ocorre no tratamento de feridas e, talvez por causa do modismo, poucas pessoas se sentem acanhadas em arriscar. Também devemos considerar que nas áreas de feridas e estomias temos mentores apaixonantes, que nos seduzem com seus conhecimentos e nos envolvem nessa seara de crescimento profissional. Já nas incontinências, diante de tão poucos iniciados, talvez esse envolvimento não ocorra tão freqüentemente.

Enfim, ainda há muitas outras considerações a serem feitas, mas, dentre elas, destaco principalmente a questão dos dados epidemiológicos das incontinências no mundo. Eles são realmente importantes e denotam um mercado de trabalho promissor. Mas é um trabalho que exigirá de nós um espírito guerreiro, no sentido de vencer nossos próprios temores de estudo infindáveis, bem como aqueles que envolvem o ganho de espaço de atuação em nossos locais de trabalho.

Ainda assim, garanto que vale a pena. Aqueles poucos que prestam cuidado especializado aos incontinentes que o digam, pelo brilho nos olhos e o entusiasmo em sua vivência profissional!!

Pensem nisso...

Cordialmente,
Beatriz Farias Alves Yamada

Mensagem de presidente publicada na Revista Estima – Vol 6(1) 2008, pág. 5